Foram quatorze dias trabalhando com as crianças e adolescentes do BFCH e vivendo na vila de Bistachhap. Não foi um período extremamente longo, mas acho que dificilmente iremos esquecer. É importante lembrar que não passamos a vida aqui, passamos duas semanas, ou seja, não podemos dizer que tudo que vimos e estamos descrevendo abaixo seja exatamente a “vida como ela é”, mas sim um momento no dia a dia das pessoas que moram aqui e que nos deu uma pequena base de como vivem.

A vila fica no vale de Kathmandu cercada por montanhas, florestas, grandes plantações de arroz e diversas outras pequenas plantações de legumes, frutas e vegetais, basicamente para subsistência. Ela é composta por uma parte superior e uma inferior, onde nos hospedamos. São aproximadamente 30 casas com uma média de 8 a 10 pessoas por casa. Quase todos são parentes em algum grau. As casas são simples e a grande maioria não tem banheiro dentro, apenas fora. Não há luz elétrica nas ruas, apenas dentro das casas, mas por aproximadamente 12 horas ao dia ela não funciona.

A nossa rotina era simples. Acordávamos às 4:30 da manhã quando algumas pessoas da casa em que estávamos morando acordavam. Normalmente o responsável pela casa estava retornando do trabalho (ele é guarda noturno do orfanato) e a esposa dele iniciava a limpeza dos legumes e vegetais colhidos na fazenda comunitária da vila. Ela separava o que não era para consumo da família, pegava o ônibus para Kathmandu e ia vender no mercado. A viagem de ônibus demora entre 90 e 120 minutos somente para ida. Nessa mesma hora, a mãe e o pai dele começavam a rezar para os diversos deuses hindus, entoando mantras e colocando flores em cada uma das sete imagens que ficavam fora da casa. Ainda não era nossa hora de levantar então retornávamos para mais um pouco de sono.

Enquanto a esposa ia para o mercado, o dono da casa saía para mais uma jornada de trabalho, agora na fazenda comunitária. A fazenda pertence ao vilarejo, é administrada por um conselho (do qual ele faz parte) e toda a produção de legumes e vegetais é dividida entre as famílias locais. O que não é utilizado para consumo é vendido para renda adicional. O arroz é colhido do pedaço de terra que cada família possui.

Às 6 horas estava totalmente claro e o restante da família já havia acordado, então levantávamos. Depois do chá matinal saíamos para o orfanato.

Chegávamos lá por volta das 7:15. As crianças já estavam em pé e se aprontando para a escola. A Mila fazia fisioterapia na Sunita A, pois ela teve uma paralisia cerebral e tem dificuldade em movimentar seu lado direito. Eu pegava os três com Síndrome de Down para fazer exercícios (na verdade ficávamos os três correndo e brincando de pega-pega). Ainda dava tempo de jogar um pouco de ping-pong com os outros meninos, antes deles se arrumarem, comerem e saírem para pegar o ônibus para a escola.

Quando todos já tinham saído, por volta das 9:30, tomávamos o caminho de casa para o nosso daal bhaat matinal. Éramos servidos de arroz, lentilha, curry de batata e molho de pimenta pela avó. Ela é extremamente simpática e estava sempre de cócoras na cozinha, enchendo nossos pratos e sorrindo. Pena que não falava nada de inglês e a gente nada de nepali, acho que teria sido muito bom poder ter uma longa conversa com ela! De barriga cheia, era hora de voltar ao orfanato.

O dia a dia das crianças já tem uma rotina muito bem estabelecida, eles são praticamente independentes e todos frequentam a escola entre 10h e 16h. Por isso, nessas duas semanas ficamos encarregados de pintar alguns cômodos do orfanato enquanto as crianças não estavam.

Às 16 horas, quando eles retornavam da escola, era hora de brincar. Normalmente jogávamos ping-pong, líamos livros infantis e víamos vídeos ou fotos. Às 17:30 era hora de lavar os pés e as mãos e começar a estudar. Às 18:30 era servido o daal bhaat, depois eles lavavam seus pratos e suas roupas e iam para seus quartos se preparar para dormir. Nesse momento eu e a Mila voltávamos para a vila para nosso daal bhaat noturno. Às 20 horas já estávamos no quarto lendo, escrevendo e conversando sobre a experiência que estávamos tendo.

Essa foi basicamente nossa rotina durante os 14 dias, mas tivemos alguns momentos diferentes que vale ressaltar:

1) Ida para a escola com os três com Síndrome de Down (Raju, Krishna e Cheena): ao invés de voltarmos para o daal bhaat matinal, pegamos o jipe com os três para ir ao Nepal Disable Women Service, uma creche financiada por uma instituição japonesa, para crianças especiais. Ficamos surpresos com a qualidade do que vimos! Quatro professoras, sendo duas voluntárias (uma está la porque leva o filho com paralisia cerebral e a outra é estudante e faz por que gosta), passam o dia fazendo atividades lúdicas que passem alguns conceitos básicos de vida, de acordo com a capacidade de cada uma. As crianças demandam bastante, querem atenção para brincar, abraçar e falar o tempo todo, ainda mais com dois “alienígenas” como eu e a Mila. Porém o sentimento de satisfação no final do dia foi indescritível, principalmente pela felicidade dos três por termos ido para a escola com eles.

2) Passeio pelas montanhas e pela fazenda comunitária da vila: saímos com o Radshyan e seu filho Krishna às 6:30 da manhã para um passeio até o topo do morro próximo da vila. De lá pudemos ver grande parte do vale de Kathmandu, uma paisagem maravilhosa. Na volta passamos na fazenda comunitária que está sendo transformada em orgânica. Aprendemos como fazer pesticida com urina de vaca e fertilizante com restos de comida, humos e fezes de vaca. Não sei como vou utilizar este aprendizado em São Paulo, mas valeu a lição.

3) Ida e volta de Kathmandu de ônibus e van: tivemos duas oportunidades de ter essa experiência, a primeira para uma reunião dos voluntários e a segunda para comprar agasalhos de presente para as crianças. Como o ponto inicial do ônibus é em Bistachhap conseguimos sentar na última fileira do micro ônibus, que deve ter uns 40 anos de uso e foi feito para 22 pessoas, incluindo o motorista. Eram oito bancos para dois passageiros, um para quatro, mais o do motorista e o do seu lado. Todos estavam ocupados, ou seja, o ônibus já saiu com 22 pessoas. Na próxima vila entraram mais três e o “cobrador” fez sinal para que eu e a Mila apertássemos no último banco. Desafiando a lei da física sentou mais uma pessoa no banco que já era apertado para quatro. O mesmo aconteceu nos bancos para dois que “facilmente” viraram bancos para três. E até o do cobrador virou banco pra três. Mas essa foi apenas a primeira parada de uma viagem de 60 minutos! Até o momento que consegui contar já tinham entrado mais de 44 pessoas, depois tive que parar para poder achar espaço para respirar, senão sufocava. Aprendi como uma sardinha se sente. Depois disso ainda tivemos mais 30 minutos de van que, seguindo a mesma regra, conseguiu colocar mais de 25 pessoas em um espaço para 10! Realmente foi uma experiência incrível mas, segundo o Jaggu, dessa vez demos sorte pois em datas festivas o ônibus leva também cabras e galinhas. Aí sim seria uma experiência completa em um ônibus do Nepal!

4) Depois do choque inicial devido às grandes diferenças culturais e sociais, um dia estávamos voltando para a casa e eu comentei com a Mila: “nossa, a gente se acostuma com tudo, sabe que já estou me acostumando com lentilha de café da manhã, banheiro de agachar, quarto com aranha e cama sem colchão!”. Mas, para nosso espanto, ao chegar em casa estavam limpando o chão com cocô de vaca! Bem, pelo menos aprendemos que se a vaca é sagrada, o que sai dela também é!

5) Início do Festival Dashain: com duração de 15 dias, é o principal festival religioso do calendário do Nepal e é celebrado pelos hindus de todas as castas. Ele comemora a vitória dos deuses contra os demônios e a deusa Durga é venerada. É um período para juntar a família e dar presentes, lembrando um pouco o Natal cristão. Este festival tem algumas datas marcantes:

– Primeiro dia, que nesse ano caiu em 16/10: Ghatasthapana, dia de colocar oferendas à deusa Shakti. Um pote chamado kalasha recebe água sagrada, é coberto com fezes de vaca e são plantadas sementes de cevada. Este pote é colocado sobre uma “cama” de terra com grãos plantados. Durante 10 dias um homem da família deve rezar perante esse pote duas vezes por dia.

– Sétimo dia: acontece uma parada militar para levar até a casa do Primeiro Ministro a jamara (brotos de cevada) do pote kalasha oficial.

– Oitavo dia: milhares de búfalos, cabras, pombas e patos são sacrificados em templos por todo o país. O sangue, símbolo da fertilidade, é oferecido às deusas. Esta noite é chamada de Kal Ratri, noite negra. Acreditam que comer a carne desses animais traz boa sorte.

– Nono dia: o auge das cerimônias e rituais. Nesse dia o deus da criatividade é venerado e tudo o que faz uma pessoa ganhar a vida (por exemplo, ferramentas, carro, equipamentos, etc) é banhado com sangue de animais sacrificados. Os portões do templo Taleju são abertos ao público e milhares de devotos vão visitá-lo.

– Décimo dia: a tika, uma mistura de arroz, iogurte e do pigmento vermilion (vermelho) é preparada pelas mulheres. Os mais velhos colocam a tika e o jamara (preparado no primeiro dia do festival) na testa dos parentes mais próximos, para abençoá-los. Também é o período de presenteá-los com uma pequena quantia de dinheiro. Esse ritual segue por cinco dias até a lua cheia, dia em que as famílias se reúnem e trocam presentes. Nesse ano, graças a alguns amigos brasileiros que fizeram doações através do nosso site, as crianças do orfanato ganharam agasalhos para o inverno. Todos agradecem!


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