Como tudo na vida, chegou a hora de nos despedirmos e por mais que a gente se prepare é sempre muito difícil. Comigo, aqui no Nepal, não foi diferente. Como seria um período curto, quatorze dias, eu achava que não daria tempo de me apegar às crianças. Puro engano.

Logo que começamos o trabalho fomos entrando em uma deliciosa “rotina” extremamente compensadora. Fisioterapia e exercícios matinais, brincadeiras antes de ir para escola, pintar o orfanato e mais brincadeiras à tarde. Recebíamos um milhão de perguntas sobre nossas vidas, país, trabalho, casamento, família e tudo o mais que vocês puderem imaginar.

A gente começou interagindo com todos da mesma maneira, afinal éramos desconhecidos. Mas não teve como não se aproximar mais de um ou de outro. Todos são crianças e adolescentes maravilhosos. O Tanka, por exemplo, é o mais novo com 11 anos, muito esperto, super educado e sempre se aproximando para ganhar um abraço ou brincar na minha barba. O Udaya, com 13 anos, sempre me desafiando nos golpes de karatê ou com perguntas indiscretas. O Krishna, a cada abraço abria um sorriso descomunal que dava vontade de não largar mais. E o Tej, com 12 anos, super tímido, mas muito inteligente e com excelente capacidade para esportes. Também os mais velhos (Bishnu, Suresh, Kamal e Sujan) sempre perguntando e buscando informações sobre o mundo fora do Nepal. As meninas tinham mais contato com a Mila, principalmente por motivos culturais uma vez que aqui no Nepal existe um distanciamento grande entre homem e mulher. Mas no final elas até estavam se aproximando para participar de algumas brincadeiras.

Mas não teve como não me apegar ao Raju. Ele tem 19 anos, portador de Síndrome de Down, mas extremante esperto, com grande capacidade de comunicação (fala inglês e nepali) e muita “malandragem”. Ficava me chamando o tempo todo para jogar ping pong, o que eu fazia sempre que os demais meninos da casa não estavam ocupando a mesa. Devo ter jogado umas 50 “partidas” com ele, e na sua contagem ele ganhou todas rs! Ele adora sair escondido do orfanato e ir para uma Tea House na vila onde, após dançar, acaba ganhando chá e biscoitos. Por sinal, dançar é algo que ele ama. As filmagens que temos dele, do Krishna, da Cheena, da Mila e eu dançando são impagáveis. No dia a dia ele cuida do Krishna (que também tem Down) ajudando a lavar a roupa, chamando na hora de comer, mandando colocar agasalho quando esfria, etc. É impressionante ver como os responsáveis pelo orfanato ensinaram a essas crianças o que é necessário para a sobrevivência e evolução. Estão de parabéns!

Brincar e conversar com o Raju se tornaram minha maior alegria no orfanato. Eu estava aqui para ajudar e, sem saber, ele estava me ajudando muito. Me ajudando a ver um mundo diferente, a rir à toa, brincar e dançar sem compromisso, enfim me ensinando a me divertir com pouco.

Todas as noites, antes de voltarmos para a vila, o Raju perguntava se voltaríamos no dia seguinte. Sempre respondia que sim e que iríamos jogar, andar e dançar, três coisas que ele adora. Ele abria um sorriso malandro e ia embora curtir seu jantar. Mas ontem comecei a falar que voltaríamos apenas mais um dia, que depois precisaríamos ir embora para casa. Ele insistia dizendo que não, que podíamos ir, se depois voltássemos.

Bem, hoje chegou nosso último dia. Cada um de nós recebeu um colar de flores, a tika na testa e um cartão de despedida assinado por todas as crianças. O Tanka e o Udaya quase nem se despediram, e eu também não consegui dar tchau direito. Foi triste. Mas o mais difícil foi na hora que falei tchau pro Raju. Ele saiu correndo dizendo “no goodbye” e entrou embaixo da mesa de ping pong…. Nem consegui olhar pra trás! Vou sentir falta das brincadeiras e da malandragem inocente dele!

Independente das dificuldades do começo e da despedida, valeu cada minuto que passamos aqui. Nunca vou me esquecer.


Comente no Facebook!

comentários