De Astorga a Ponferrada: 53 Km (dividimos em duas etapas: Astorga a Rabanal del Camino 20 Km e Rabanal del Camino a Ponferrada 33 Km)

No 21° dia São Pedro resolveu dar mais uma trégua, a previsão do tempo era animadora para quem precisava caminhar horas durante o dia. Por isso, decidimos aproveitar um pouco mais o hotel de Astorga e ficamos para o café da manhã, que começava às 7h. Valeu a pena, já estávamos cansados do pão com jamón ou croissant, com iogurte, sentados na cama. Foi uma delícia ter as opções de um buffet, comemos até demais!

A caminhada não era longa, 20 Km, mas o terreno plano em que vínhamos caminhando nos últimos dias acabou e o cenário mudou para uma considerável subida. A paisagem de pastos e plantações também mudou, passando para montanhas e árvores.

Saímos às 7:40h e às 12:30h já estávamos em Rabanal del Camino, bem a tempo de acompanhar a procissão em comemoração a Asunción de la Virgen, na qual quase a cidade inteira (59 pessoas) estava participando.

Rabanal del Camino era o final da nona etapa do famoso Códex Calixtinus, sendo o marco para o início da subida do Monte Irago, onde se encontra a Cruz de Ferro, a 1.500m de altitude.

O Códex Calixtinus é composto por cinco livros que contém sermões, narrativas de milagres e textos litúrgicos relacionados ao apóstolo São Tiago. É considerado o mais antigo guia para os peregrinos que faziam o Caminho de Santiago de Compostela. Nele era possível encontrar conselhos, descrições de rota, do que ver, dos costumes das populações do percurso, obras de arte e etc. Esses livros foram escritos entre 1130 e 1160, tendo sua origem atribuída ao Papa Calisto II, mas na realidade tendo sido escrito por diversos autores.

Para terminar o dia, um prato típico (cocido maragato) para a Mila e um bom vinho de Bierzo para mim, afinal no dia seguinte sairíamos da região maragata e entraríamos em El Bierzo.

Às 6hs da manhã do 22° dia, quando abrimos a porta para começar a segunda etapa de nossa subida ao Monte Irago, vimos que tínhamos errado na dose de pedidos para São Pedro mandar um pouco de frio. Os termômetros estavam marcando 6°C e ventava muito (não precisava exagerar!). O começo da manhã não foi nada confortável. É verão e não temos nada para aquecer o corpo, ou seja, foi uma caminhada bem fria. Quando chegamos no primeiro pueblo, Foncebadón, 300 m de altitude acima e 5,5 Km de distância, as mãos, orelhas e nariz estavam congelando. Por sorte um dos seis habitantes do pueblo (isso mesmo, lá moram seis pessoas!), estava acordado e tinha aberto o único café do local. Nada como um bom café com leite bem quente para podermos continuar a subida.

Quando recomeçamos o sol já estava ameaçando aparecer no horizonte e enviava um pouco de calor para nossos ossos. Foram mais vinte minutos até chegar ao ponto mais alto do Caminho de Santiago de Compostela, a Cruz de Ferro.

Não se sabe exatamente quando a cruz foi colocada nesse local, mas este é considerado um dos monumentos mais antigos e lendários do Caminho. Também é um dos mais simples, uma pequena cruz de 30cm (eu acho, não consegui medir), sobre um mastro de madeira de 7 metros, rodeados por uma pilha de pedras de quase trinta metros de diâmetro. Esse monte de pedras é resultado de anos de peregrinação, pois diz a tradição que, para terminar bem o Caminho, o peregrino deve colocar ao pé da Cruz uma pedra trazida de sua casa. Quem vai se arriscar a não colocar?

Colocamos nossas pedras, fizemos nosso pedido e continuamos no Caminho. Às 8:45h estávamos em Manjarín, um pueblo de 2 habitantes. Conhecemos os dois, mas o mais impressionante é o Tomás Martinez, o idealizador do local. Ele mora lá desde 1993, se veste como um templário e três vezes ao dia pára tudo para fazer orações a Nossa Senhora e ao Arcanjo Rafael. Chegamos bem na hora de uma oração e foi uma experiência indescritível. Se tiverem curiosidade, vale a pena uma passada em Manjarín (que por sinal tem um albergue, que é gratis e fica dentro da casa dele). Valeu a pena conhecer o Tomás.

Depois disso saímos para continuar nosso Caminho, era hora de descer tudo que havíamos subido. Haja joelhos e pernas para isso!

Uma parada para o tradicional bocadillo/cerveja em El Acebo, mais uma parada em Molinaseca e 33 Km depois chegamos em Ponferrada para um bom “almoço” (às 19h) e cama.

Foram dois dias cheios de novidades, com muitas subidas e descidas, temperaturas entre 6° a 36° C, e muita gente interessante. Obrigado por esses dias!

Curiosidades

Na igreja de Rabanal del Camino, todos os dias às 19 h tem cantos gregorianos em latim e às 21:30h uma benção aos peregrinos. Os padres querem ter certeza que todos estejam benzidos para começar a subir até a Cruz de Ferro!

Alguns guias dizem que a Cruz de Ferro não é o ponto mais alto do caminho, e sim um morro logo após Manjarín (o pueblo de 2 pessoas) que fica a 1.517 metros. Infelizmente não estava com minha trena para medir, então não posso confirmar quem tem razão.

Tomás, o hospitaleiro templário, esteve no Brasil em março deste ano. Ele foi à uma cidade próxima a Três Corações para ver se era verdade o que tinha ouvido sobre as aparições de Nossa Senhora e voltou impressionado (se quiserem saber mais sobre as aparições entrem no site Divina Madre, uma indicação do Tomás).

Iríamos dormir em Molinaseca no 22° dia, mas o garçom do restaurante nos disse: “Tenemos habitaciones disponibles, pero hoy es fiesta en la ciudad y vamos a bailar hasta las cinco de la mañana”, traduzindo “se quiserem dormir na cidade tem quarto, mas vocês vão se f… e não vão dormir p… nenhuma”. Andamos mais 7 Km até Ponferrada.

Em Ponferrada, os principais pontos turísticos são a Basílica de Nuestra Señora de la Encina e o Castelo dos Templários.

Faltam 207,2 Km para Santiago de Compostela, ou seja, andamos 567,2 Km.


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