De León a Astorga: 49 Km (dividimos em duas etapas: León a San Martín del Camino 25 Km e San Martín del Camino a Astorga 24 Km)

Nestes dois dias tivemos experiências muito distintas, diria que opostas. O único ponto em comum foi o clima, que melhorou bem para caminhar.

No 19° dia andamos quase 7 Km, entre ruas e avenidas, para conseguir sair de León. Depois, o caminho seguiu beirando uma grande estrada nacional, a N120. Esta estrada começa em Logroño e termina em Vigo, cruzando boa parte do norte da Espanha. O Caminho de Santiago cruza com ela várias vezes e já havíamos andado ao seu lado em diversos dias, mas sempre por curtos períodos de tempo. Desta vez, andamos ao lado dela o dia todo, ouvindo apenas o barulho infernal dos carros e caminhões. Todos os pueblos pelos quais passamos eram apenas aglomerações de casas ao redor da estrada, ou seja, nosso lanche em San Miguel del Camino teve a mesma trilha sonora dos motores.

Quando chegamos em nosso destino, San Martín del Camino, foi uma decepção só. O pueblo, e seus únicos dois albergues, eram na beira da estrada. Tivemos uma noite horrível, em um quarto mofado, ao som da estrada.

O dia só valeu porque tivemos a oportunidade de conhecer e caminhar com o Alfredo, um senhor espanhol muito gente boa que está fazendo o Caminho pela 5° vez.

O dia seguinte, o 20°, teve outra história. Tínhamos duas alternativas de caminho, seguir beirando a N120 ou ir por uma área agrária, nossa opção. Para fugir do pesadelo da noite, antes das 5 hs já estávamos caminhando e chegamos em Hospital de Órbigo antes do amanhecer. Pudemos sentar para tomar um belo café da manhã e ver o dia amanhecer em frente à Ponte sobre o Rio Órbigo. Esta ponte foi construída no séc. XIV e remodelada nos séculos posteriores, é uma das pontes mais famosas do caminho, tanto por sua qualidade arquitetônica quanto por sua história.

Conta-se que, em 1434, o rico cavaleiro leonês Don Suero Quiñones declarou o seu amor a uma dama, Leonar Tovar, mas ela o recusou. Don Suero então mandou espalhar aos quatro ventos que não iria permitir que nenhum cavaleiro peregrino passasse pela ponte sem que o mesmo participasse de uma justa contra ele e seus nove companheiros. O espetáculo durou um mês inteiro, de 10 de julho a 9 de agosto, com exceção do dia 25 de julho, aniversário do Apóstolo Santiago. Ao final Don Suero derrotou cavaleiros franceses, italianos, alemães, portugueses e espanhóis e quebrou 166 lanças. E vencedor e vencidos, de diversas nacionalidades, juntos peregrinaram para Compostela para darem graças ao Apóstolo. Este episódio ficou conhecido como El Paso Honroso e tornou-se tão famoso que é citado com admiração até por Don Quixote, na obra de Miguel de Cervantes.

Após nosso café caminhamos por plantações de milho e pequenos povoados, curtindo a natureza e ouvindo novamente os passarinhos, uma benção perto do dia anterior. No caminho cruzamos com o David e La Casa de Los Dioses, local onde o peregrino é recebido com carinho e atenção. Você pode descansar, beber ou comer algo e deixar de doação o que achar justo.

Quando chegamos a Astorga achamos um hotel-spa super bacana, recém inaugurado, que estava com promocão para peregrinos. Fizemos uma hora de spa, jantamos um maravilhovo pulpo a gallega (polvo com azeite, sal e páprica) e fomos passear. Adorei a cidade, super cheia de vida.

Fomos visitar a Catedral e o Palácio Episcopal de Astorga, projetado pelo arquiteto espanhol Antoni Gaudí e construído entre 1889 e 1915. Este Palácio Episcopal em Astorga, a Casa Botines em Burgos (que também fomos ver) e El Capricho em Comillas são as únicas obras de Gaudí fora da Cataluña.

E dormimos bem e felizes.


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